O cinema de animação no sertão da Paraíba construiu, nas últimas duas décadas, uma trajetória sólida, que começou em pequenas cidades do interior e chegou a premiações e exibições em festivais no Brasil, na Europa e nas Américas.
Em setembro de 2026, essa história ganha um novo capítulo com o lançamento de “O último olhar”, curta-metragem produzido em Cajazeiras que chega ao público no evento Aralume.
Conheça a história, destaques e realizadores do cinema de animação no sertão paraibano a seguir.
Uma faísca pioneira: a primeira animação do alto sertão paraibano
Em 2006, o artista Getúlio Salviano explorou uma função do programa Corel Draw, em Marizópolis, e produziu “Palitto”, animação 2D que retrata a trajetória de uma banda sertaneja em busca de identidade musical.
O curta foi exibido no festival Sesc Jampa Video, em João Pessoa, marcando a primeira aparição registrada de uma animação produzida no Alto Sertão Paraibano em um circuito de mostras de cinema.

Getúlio não deu continuidade à produção de animações, e o audiovisual sertanejo seguiu por mais alguns anos sem um polo consolidado nessa linguagem.
A semente plantada: a oficina que transformou Aparecida em polo de cinema de animação
Em 2009, o Centro Cultural BNB de Sousa promoveu uma oficina de cinema de animação no Ponto de Cultura de Aparecida, ministrada pelo artista, animador e quadrinista cearense André Dias.
O contexto era de plena efervescência cultural: o programa Revelando os Brasis, do Ministério da Cultura, havia impulsionado o cinema documental no sertão paraibano, e adultos, jovens e crianças participaram com entusiasmo da formação.
André Dias, formado em 1995 pelo Nace (Núcleo de Cinema de Animação do Ceará, vinculado à UFC) e coordenador dessa instituição entre 2000 e 2004, contagiou os participantes com carisma e afeto.

O resultado direto da oficina foi a criação do Núcleo de Cinema de Animação em Aparecida, que se tornaria o principal centro de produção de animações do sertão paraibano.
O núcleo já conta com cinco produções que percorreram o circuito de festivais:
- Imãsginação (2014 – stopmotion)
- Via Acauã (2016 – stopmotion)
- Uma Aventura na Caatinga (2017)
- Anjos Cingidos (2022)
- A menina que amava gatos (2025)
- A peleja do carão com a cigarra (2026 – em produção)
- Quem acendeu a lua? (2027 – em breve inicia a produção)
O cinema de animação sertanejo percorre festivais nacionais e internacionais
Desde 2006, seis curtas-metragens de animação 2D produzidos no Alto Sertão paraibano circularam pelo circuito nacional e internacional de mostras e festivais de cinema:
- Palitto (2006, 2 min., dir. Getúlio Salviano – Marizópolis): Uma banda sertaneja descobre na música regional um caminho criativo e produtivo.
- Uma aventura na caatinga (2017, 11 min., dir. Laércio Filho, – Aparecida): Dois meninos vivem uma aventura cheia de descobertas e poesia no bioma Caatinga. O curta circulou por mais de 50 festivais, incluindo o Festival Audiovisual do Mercosul e o Festival Internacional de Cinema Infantil, no Rio de Janeiro.
- Anjos cingidos (2022, 15 min., dir. Laércio Filho e Maria Tereza Azevedo – Aparecida): Retrato da mortalidade infantil no sertão nordestino do início do século XX, com premiações em festivais no Brasil, no Reino Unido e na Bulgária.
- A menina da serra (2024, 11 min., dir. Cleyson Café – Paulista): Apesar das dificuldades da vida no campo, Edinete encontra felicidade nas pequenas coisas até ser levada a um lugar totalmente inesperado.
- A menina que amava gatos (2025, 14 min., dir. Maria Tereza Azevedo – Aparecida): Em uma vila após a pandemia de covid-19, uns fazem o bem, outros o mal, outros apenas querem amar e serem amados.
- Lançamento: O último olhar (2026, 10 min., dir. Vitor Daniel Cartaxo – Cajazeiras): No final da vida, um artista-cientista cria uma câmera indestrutível para cumprir uma promessa e a instala em uma praça pública no alto sertão paraibano.
Além da produção, também existem festivais de cinema do Sertão da Paraíba que exibem animações nacionais. Dito isto, conheça um pouco sobre a trajetória dos curtas-metragens sertanejos nos festivais.
Uma aventura na caatinga: mais de 50 festivais no Brasil e no exterior
“Uma aventura na caatinga” teve uma ampla circulação desde seu lançamento em 2017, passando por mais de 50 festivais e mostras de cinema no Brasil e no exterior.

Entre os destaques estão o Festival Audiovisual do Mercosul (FAM), em Florianópolis, a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), no Rio de Janeiro, e o Encontro de Cinema e Vídeo dos Sertões, no Piauí.
A animação também integrou o WorldScene, em Chicago, nos Estados Unidos. Até onde se sabe, foi a primeira animação 2D produzida no sertão paraibano a percorrer o circuito internacional de festivais.
Anjos cingidos: do sertão aos festivais do Reino Unido e da Bulgária
“Anjos cingidos” acumulou uma extensa lista de prêmios e menções honrosas entre 2022 e 2024, incluindo o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Técnico na Mostra de Inovação Cultural e Artística de Maricá (RJ), Melhor Roteiro no Cine Catita (PE) e Melhor Som no CineVirada, Festival de Cinema Universitário da Bahia.

Internacionalmente, o curta foi selecionado para o First-Time Filmmaker Sessions e para o Lift-Off Sessions em Pinewood Studios, no Reino Unido, além do Festival FEMI de Cinema de Ouro, na Bulgária.
A menina que amava gatos: prêmio em Patos e cinco indicações no Encontro Nacional dos Sertões
“A menina que amava gatos” conquistou o prêmio especial da mostra infantil no 12º Cinema com Farinha, em Patos (PB), e recebeu cinco indicações na Mostra Competitiva Nacional do 19º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões, em Floriano (PI), nas categorias de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro, melhor fotografia e melhor direção de arte.

O curta também circulou por festivais na Bulgária, na Espanha e no México, consolidando a presença internacional da animação produzida em Aparecida.
A menina da serra: circulação por festivais paraibanos e internacionais
“A menina da serra” iniciou sua trajetória em festivais em 2024, com passagens pela Mostra Sesc de Cinema, pelo Curta Coremas e pelo Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro.

O curta também participou da II Mostra de Cinema de Ouro Velho, onde conquistou o terceiro lugar na categoria de Melhor Filme.
Em 2025, a animação ampliou sua circulação com participações no Festcine Taperoá, no Cine Forte, no Giracine e no International Children’s Film Festival (ICFF), alcançando também o circuito internacional.
Quem são os realizadores do cinema de animação no sertão paraibano
Os realizadores de animação em destaque no sertão paraibano são Laércio Filho, Maria Tereza Azevedo e Cleyson Café. Em 2026, Vitor Daniel Cartaxo faz sua estreia na linguagem.
A trajetória do cinema de animação sertanejo é, portanto, resultado do trabalho de um grupo de realizadores com perfis, formações e trajetórias diversas. Conheça um pouco sobre cada realizador:
Láercio Filho
Láercio Filho é produtor cultural, natural de Pombal e morador de Aparecida. Atua há 30 anos na área cultural com projetos ligados ao teatro, ao cinema e à comunicação.

Foi eleito, em 7 de maio de 2025, membro da Academia Paraibana de Cinema, ocupando a cadeira que pertenceu ao cineasta Vladimir Carvalho, ícone do cinema documental brasileiro.
Você pode acompanhá-lo por meio do Instagram: @laercinhopt.
Maria Tereza Azevedo
Maria Tereza Azevedo, jovem promessa da animação sertaneja, é membro da ONG Acauã Produções Culturais e atua no audiovisual desde criança. Participou de 4 dos 6 curtas de animação produzidos no sertão.

Codirigiu “Anjos cingidos” ao lado de Láercio Filho, assinou a direção de “A menina que amava gatos” e retorna como diretora de animação em “O último olhar”.
Você pode acompanhá-la por meio do Instagram: @tuliipazzz.
Cleyson Café
Cleyson Café, artista visual de Paulista com experiência em projetos no Brasil e fora do país, produziu “A menina da serra” praticamente sozinho, com recursos oriundos dos editais da Lei Paulo Gustavo. É diretor de arte do RPG popular “Ordem Paranormal”.

Você pode acompanhá-la por meio do Instagram: @cleysoncafe.
Um novo realizador
Vitor Daniel Cartaxo, natural do alto sertão, escritor e mestrando em Filosofia pela UFPB, assina roteiro e direção de “O último olhar”. Dirigiu o documentário “Um sertão profundo” (2024) e a ficção “Volúvel” (2025).

Para a sua animação de estreia, reuniu na equipe tanto membros do núcleo de Aparecida quanto novos artistas do sertão paraibano. O autor também é roteirista de quadrinho; publicou pelo Quadrosofia a HQ Camus.
Você pode acompanhá-la por meio do Instagram: @ivitordaniel.
O último olhar: a nova animação que nasce do alto sertão paraibano
“O último olhar” narra a história de um artista-cientista que, no final da vida, cria uma câmera indestrutível para cumprir uma promessa e a instala em uma praça pública no alto sertão paraibano.
O roteiro e a direção são de Vitor Daniel Cartaxo, com direção de animação de Maria Tereza Azevedo, direção de arte de Paulo Henrique Moreira (autor da HQ “Igualzinho”) e produção executiva de Thainara Gonçalves.

Na equipe, contam os artistas visuais Paulo Ricardo (faz parte do Núcleo de Aparecida), Emerson Veloso, Thaíssa Abrantes e Edson Victor.
A voz original é de Fernando Teixeira, e a trilha sonora reúne composições de Oliveira de Panelas, Socorro Lira, Eduardo Abranttes e Edilberto Abrantes.
O filme está previsto para iniciar sua circulação pelos festivais a partir de novembro de 2026.
Aralume: a sessão que celebra vinte anos de animação sertaneja
No dia 26 de setembro de 2026, o evento Aralume reúne, em sessão única, todos os curtas-metragens de animação produzidos no alto sertão paraibano que percorreram o circuito nacional e internacional de festivais de cinema.
A sessão acontece na sala de Cinema Marcélia Cartaxo, no Centro Cultural Zé do Norte, em Cajazeiras (PB), a partir das 19h.
O evento marca também o lançamento público de “O último olhar”, que chega ao público antes de iniciar sua trajetória pelos festivais.
Em vinte anos, o cinema de animação no sertão paraibano cresceu de uma experiência pioneira e isolada para um movimento com presença confirmada em festivais na Europa, nas Américas e em todo o Brasil.
O evento Aralume e o lançamento de “O último olhar” confirmam que essa produção segue viva, com novos realizadores prontos para colocar o sertão em movimento.
Uma animação feita do sertão para o mundo
A trajetória das animações produzidas no Alto Sertão paraibano revela uma cinematografia construída mais pela iniciativa dos próprios realizadores do que pela existência de uma estrutura formal de formação especializada na região.
Nesse percurso, o aprendizado aparece principalmente pela prática, por oficinas pontuais, pela experimentação e pela troca entre artistas, como aconteceu com a formação que deu origem ao Núcleo de Cinema de Animação de Aparecida e continuou influenciando novas produções ao longo dos anos.
Esse caráter artesanal também se reflete na maneira como os filmes são produzidos, geralmente a partir de equipes pequenas, iniciativas independentes e recursos limitados, viabilizados por editais e políticas públicas de fomento ao audiovisual.
Mais do que reproduzir modelos de grandes estúdios, esses realizadores encontram maneiras próprias de transformar ideias em imagens, reunindo diferentes funções dentro das equipes e desenvolvendo os projetos a partir das condições disponíveis.
O resultado é uma produção que frequentemente olha para o próprio território como matéria narrativa.
A Caatinga, a vida no campo, a música regional, as relações comunitárias, a infância, a memória, a morte, o amor e as transformações provocadas pelo mundo contemporâneo aparecem nas histórias, fazendo com que o sertão não seja apenas o lugar onde os filmes são produzidos, mas também parte de seus temas e imaginários.
Ao mesmo tempo, essas animações não ficam restritas a uma representação documental da região: há espaço para poesia, fantasia, experimentação, aventura e elementos universais que permitem que histórias profundamente ligadas ao sertão encontrem espectadores em diferentes lugares.
Depois de vinte anos de experiências, o cenário também começa a revelar uma continuidade entre gerações, com realizadores que participaram das primeiras iniciativas trabalhando ao lado de artistas mais jovens e novos diretores incorporando a animação às suas próprias trajetórias.
“O último olhar” surge nesse contexto como mais um passo de uma produção que ainda é pequena em volume, mas já demonstra diversidade de artistas, técnicas, temas e caminhos de circulação.
O futuro dessa animação sertaneja dependerá, entre outros fatores, da continuidade das políticas de fomento, da criação de novas oportunidades de formação e da capacidade de manter esses artistas conectados ao território sem limitar suas obras a ele.
Por isso, mais do que uma coleção de curtas produzidos em cidades do interior, a história reunida aqui aponta para a formação gradual de uma linguagem audiovisual própria, construída no sertão, alimentada por suas experiências e capaz de levar essas histórias para muito além dele.


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