A artista e ativista paraibana Yasmin Formiga foi a Sousa no dia 22 com duas atividades que colocam a Caatinga no centro da conversa.
Entre uma palestra sobre ativismo e arte e uma oficina sensorial com crianças, a programação propõe um olhar político e afetivo sobre o bioma mais invisibilizado do Brasil.
A entrada é gratuita e as atividades acontecem em espaços distintos da cidade.
Palestra de manhã: quando a arte vira instrumento de luta
No dia 22 de abril, Yasmin Formiga abre a programação na ECIT Chiquinho Cartaxo, em Sousa.
A palestra “Relação entre ativismo, arte e a luta pela conservação da Caatinga” é parte da programação externa do evento e tem duração de uma hora, com classificação livre.
No encontro, a artista compartilha experiências e reflexões construídas ao longo de sua trajetória como pesquisadora e ativista ambiental.

Yasmin aborda os desafios enfrentados no cotidiano de quem defende o bioma caatingueiro e aponta a necessidade de ações concretas para frear o desmatamento e preservar sua biodiversidade.
A artista, que mantém uma atuação ativa nas redes sociais, é reconhecida por traduzir em linguagem artística as tensões políticas e territoriais que cercam o semiárido nordestino.
Oficina à tarde: sementes, telas e memórias da Caatinga com crianças
Às 14h do mesmo dia, Yasmin conduz a oficina “Memória da Terra: Redesenhando a Caatinga” na Sala de Oficinas do Banco do Nordeste Cultural, em Sousa.
A atividade é voltada para crianças a partir de 6 anos, com 20 vagas disponíveis, duração de uma hora e classificação livre.
A proposta coloca as crianças em contato direto com elementos orgânicos do bioma, como sementes de mulungu, cascas de umburana e cactáceas.

A partir do toque, da observação e da percepção das formas e texturas da vegetação nativa, os participantes são incentivados a desenhar e pintar livremente.
O resultado é uma grande tela coletiva que reúne as memórias e percepções de cada criança sobre o semiárido.
A oficina integra arte e educação ambiental como ferramentas de aprendizagem e pertencimento, com o objetivo de fortalecer o vínculo das crianças com o território desde cedo.
Quem é Yasmin Formiga
Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal da Paraíba, Yasmin Formiga é natural de Santa Luzia, no sertão paraibano.
Artista visual, educadora, pesquisadora e ativista, ela constrói uma prática que emerge do contato direto com a matéria orgânica da Caatinga.
A partir desse insumo, realiza performances-instalações, obras de land art, objetos de memória, bandeiras e pinturas voltadas à conscientização ambiental.

Sua pesquisa mais recente investiga e denuncia as contradições dos projetos de energia renovável, como usinas eólicas e solares, que avançam sobre o sertão nordestino sob o que a artista identifica como formas de neocolonialismo contemporâneo e apropriação territorial.
Ao desmistificar a visão estigmatizada da Caatinga como um lugar inóspito e sem vida, Yasmin propõe diálogos interespécies e práticas de pertencimento que convidam a um olhar mais sensível, político e comprometido com o território.
Uma trajetória de reconhecimento crescente
A trajetória expositiva de Yasmin Formiga é extensa e pontuada por conquistas expressivas:
- 2018: Primeira exposição individual, “Em Síntese”, na Casa da Pólvora, PB
- 2021: Participação na Bienal de Arte Contemporânea do Sesc Paraíba, com Prêmio de Aquisição
- 2022: Segunda exposição individual, “É tudo concreto?”, no Sesc Cabo Branco, PB
- 2023: Terceira exposição individual, “Anunciação”, na Galeria Archidy Picado, PB
- 2023: Participação em “Certos Pontos Incomuns: Artistas Mulheres da Paraíba” e na VI Bienal Internacional do Sertão (CCBNB, CE)
- 2024: Participação na ArtPE, pela Arte Plural Galeria, e na coletiva “Impermanência da Paisagem”, na Galeria Capibaribe, PE
- 2025: Primeira indicação ao Prêmio PIPA, uma das mais importantes premiações da arte brasileira, ativa desde 2010
Caatinga como pauta cultural urgente no sertão
A visita de Yasmin Formiga a Sousa não é um evento isolado: é um sintoma de uma virada na forma como o sertão começa a narrar a si mesmo.
A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e historicamente tratado como paisagem de ausência, ocupa cada vez mais espaço nas agendas culturais da região.
Levar essa discussão para dentro de uma escola e de um espaço de oficinas é um gesto que posiciona a arte como ferramenta de resistência territorial.
Para as crianças que participarão da oficina, o contato com as sementes do mulungu e as cascas de umburana pode ser o início de uma relação de cuidado com o lugar onde vivem.


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